Início > Analises > Onde foi que deu errado?

Onde foi que deu errado?

Disfaradamente, badgeboards e shields sempre estiveram ali.

Disfarçadamente, badgeboards e shields sempre estiveram ali.

A temporada de 2009 vai chegando ao fim e, montando uma retrospectiva em nossas mentes, ficamos com a impressão de que fomos enganados com uma promessa de Fórmula 1 mais emocionante, mais disputada. Entretanto, foi tudo uma mistura de propaganda enganosa com altas expectativas por nossa parte, o que gerou certa decepção.

As regras técnicas mudaram radicalmente com o propósito de “melhores corridas”, mas no fim o que tivemos foram carros feios e que continuam sensíveis aerodinamicamente.

O fato é que hoje não há limites para a capacidade dos engenheiros, tanto de criação quanto de interpretação do regulamento. Enquanto a Brawn, Williams e Toyota foram pioneiras na utilização do difusor duplo, a Ferrari trouxe de volta os sidepod shields, aqueles apêndices aerodinâmicos ao lado das entradas do radiador, mas travestidos de “suporte para os espelhos”. Aos poucos, itens que deveriam ter sido banidos já estavam de volta, enquanto outros que nem se quer existiam (logo não foram restritos pelo regulamento) começaram a aparecer, como pequenas “barbatanas” na lateral do cockpit, reencarnações das pequenas asas no cockpit do F2008, por exemplo.

E o que Jean Todt, novo presidente da FIA, em conjunto com a FOTA e o Overtaking Working Group, poderiam fazer para dar mais ação à corridas modorrentas? Eu tenho algumas sugestões…

Abaixo ao congelamento dos motores

Talvez seja este o centro da questão, e passa muito despercebido entre aqueles que discutem o assunto. A evolução da aerodinâmica é algo que assola o esporte desde o início desta década, mas foi a partir de 2007 que os times se voltaram 100% ao desenvolvimento desta área do carro, tendo em 2008 atingido seu ápice – basta ver como os três carros mais rapidos do ano (o F2008, o MP4/23 e o F1.08) eram “sujos”, crivados de asas e penduricalhos. Isto é culpa direta do congelamento dos motores.

Os carros têm três áreas fundamentais para a extração de performance – o motor, a aerodinâmica e a suspensão. Entre os três, um está congelado e o outro (a suspensão) não trás benefícios tão rápidos e significativos como o segundo. Se houvesse desenvolvimento de motores, um carro X poderia ser mais rápido que o Y mesmo com uma aerodinâmica menos desenvolvida. Exemplo disso são os carros de 2004 e 2005, os mais rápidos da história em tempo de volta, com linhas não tão complexas e poderosos V10 de 1.000 cavalos.

E ainda temos de aguentar a FIA dizendo que a Mercedes terá de fazer um downgrade na sua usina, tendo em vista a comprovação de sua superioridade. Lentamente, a Fórmula 1 está se transformando em uma “spec formula

KERS – uma boa idéia, terrivelmente implementada

A idéia do KERS era, de início, interessante: um botão “aperte para ultrapassar”.

Mas não demorou muito para meu medo se tornar realidade: o botão era, na verdade, um “aperte para não ser ultrapassado”.

Há inúmeros problemas com o modelo de KERS adotado pela Fórmula 1 – pesado, jurássico, inseguro, irrelevante na diminuição da emissão de CO2, contribui com o aumento dos depósitos de baterias ao redor do mundo e absurdamente caro. Dos quatro times que utilizaram o dispositivo, apenas Ferrari e McLaren abraçaram o sistema até o fim e os dividendos foram pagos apenas na segunda metade do campeonato, quando tudo já estava virtualmente perdido.

Mas o problema principal desta engenhoca é ela ser facultativa. Tendo a opção de desenvolver a aerodinâmica mais livremente, os times menos afortunados dificilmente cogitarão correr com o KERS – a Force India é um belo exemplo disso, mas mesmo com um carro mais rápido, Fisichella não conseguiu ultrapassar o carro “KERScisado” de Räikkönen no GP da Bélgica. Não bastasse isso, vários pilotos tiveram suas corridas destruídas simplesmente por estarem presos atrás de carros com KERS.

E nem é preciso falar na covardia que em que se tornaram as largadas…

Enquanto este sistema não for obrigatório, o que pelo regulamento só vai acontecer em 2013, ainda teremos corridas em que desejaríamos que estas coisas não existissem.

Menos restrições

A temporada de 2009 foi notória quando considerado o nível de competitividade entre os carros – as vezes a diferença entre o primeiro e o último era próxima de 1 segundo -, resultado das restrições técnicas.

A GP2, por exemplo, tem chassi e motor igual para todos, mas as corridas ainda assim são disputadas. Logo, a considerável restrição técnica não é desculpa para corridas modorrentas, certo? Errado.

Os carros de F1, assim como os pilotos, estão em nível muito acima da GP2. A precisão daqueles que correm no “ápice do automobilismo” é irritantemente cirúrgica, dificilmente deixando espaço para erros, quanto mais para o piloto ao lado fazer uma ultrapassagem… Neste cenário aparentemente sem erros, o que faz a diferença é exatamente o desempenho do carro.

A F1, afinal, sempre se caracterizou mais pela competição entre equipes do que entre pilotos (eis a razão de um campeonato de construtores), e não é injusto que equipes mais fortes sempre andem na frente das mais fracas – são as grandes (e ricas) equipes que contratam os melhores pilotos e fazem os melhores carros, como foi na gloriosa época de Piquet, Prost, Mansell, Senna…

Procurando problemas que não existem

Na minha humilde opinião, a Fórmula 1 se perdeu na busca da solução de um problema que não era tão grave, e acabaram implementando mudanças contra coisas que não existem ou que eles mesmos criaram. Eu, pelo menos, nunca me deparei com a situação de trocar de canal ao assistir uma corrida por ela ser muito chata, pois eu realmente não vejo problema nisso – é natural, e em 80% das vezes é culpa da pista.

O problema é que para o telespectador médio da F1 – aquele que só consome o esporte nos fins de semana de corrida -, as corridas precisam ser mais “emocionantes”, “competitivas”, mais “NASCAR”, enquanto nós apreciamos este esporte em todos os seus nuances e pormenores, sem nos preocuparmos muito com a quantidade de ultrapassagens.

Só que quem enche os bolsos daqueles que lucram com a Fórmula 1 são esses telespectadores médios, e nada mais lógico do que tentar agradá-los…

  1. Richard
    28/10/2009 às 14:52

    Parabens pelo excelente post.

    Deveria voltar os V10, mas pelo jeito e sonho.

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: