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Fardo nipônico

Durante este ano, a cena mais comum de se ver na Fórmula 1 era a festa de um time cujos carros eram brancos e seus mecânicos se vestiam de preto. De um jeito dominante, aquele time conquistou oito vitórias no ano e sagrou-se campeão de ambos os títulos com uma corrida de antecedência.

Participando dos eventos sob uma licença britânica e sendo impulsionados por um motor alemão, as vezes até esquecemos que a Brawn GP é hoje o que um dia foi uma equipe japonesa chamada Honda. Mas teria o time obtido tanto sucesso se continuasse sob o controle japonês?

Honda testando um protótipo de asa dianteira em 2008

Honda testando um protótipo de asa dianteira em 2008

Fazendo uma analise profunda dos motivos para o sucesso do time, a resposta mais provável é “não”. Não por incapacidade da equipe travestida de mapa mundi, mas sim pelo fato de que seu maior trunfo – o efeito surpresa – seria anulado.

Apesar do time que hoje conhecemos por Brawn GP ter sido criado apenas semanas antes da primeira corrida do ano, o BGP001  já tinha quase 10 meses de gestação sob o nome de RA109. Passando toda a pré-temporada procurando por um comprador, a equipe conseguiu esconder seus segredos dos outros. Imaginando um cenário onde a Honda não tenha abandonado o esporte, o carro seria lançado no início de janeiro e iria para todas as baterias de testes coletivos. Assim, a saga dos difusores duplos começaria mais cedo, a aprovação da FIA viria mais cedo, e a concorrência alcançaria o time de Ross igualmente mais cedo. Alguns podem dizer que a Toyota e a Williams também tinham difusores duplos, mas é mais provável que ou eles não extraíram o máximo do dispositivo ou os motores da Toyota são verdadeiras bombas.

Mas por melhor que seja a aerodinâmica do carro, ele ainda é movido por um motor. E nessa “peça” residia talvez o mais crônico dos problemas de performance da Honda, e isso não é pura especulação: veja os resultados da equipe ano passado em “power tracks” como Spa e Monza, onde eles terminaram uma (ou quase uma) volta atrás.

A troca para os Mercedes foi, então, como se livrar de uma cruz que a equipe carregava nas costas. Os motores alemães já não eram mais frágeis como eram entre 2005 e 2006, e a velocidade da McLaren nos dois anos anteriores frente aos Ferrari demonstrava que a “usina” era uma das mais fortes da atualidade.

Apesar de o primeiro conjunto chassi-motor ter sido montado apenas no início de março, o casamento foi perfeito.

Somando o fator surpresa com o motor mais potente do grid, os resultados tendem a ser altos, como foram na primeira metade do campeonato, mas com certeza a equipe se beneficiou pelo fato de não estar mais atrelada à montadora japonesa. Com autonomia e competência, Ross Brawn pôde focar-se naquele que julgava ser o melhor caminho, e ninguém sabe mais do que ele por onde andar e no quê investir.

Caso fosse o contrário, Ross e Fry iriam dever resultados para a Honda e seriam forçados a investir em áreas que provavelmente não trariam o mesmo retorno – KERS é um exemplo. Teriam de engolir também, no lugar de Rubens Barrichello, Bruno Senna,  cuja performance com certeza não chegaria nem perto da do veterano.

Uma bênção.

É isso que foi a saída da Honda. Caso eles resolvessem continuar, o máximo que conseguiriam seriam duas ou três vitórias no início da temporada e lutariam pelo segundo lugar nos construtores com Ferrari, McLaren e Toyota, entrando em decadência na medida em que a temporada avançava. Já a Red Bull, sem concorrência, dominaria as tabelas.

Imprevisível, mas ao mesmo tempo óbvio: este era o potencial ‘escondido’ da Brawn GP, que veio à tona quando o fardo chamado “Honda” resolveu desligar a tomada de suas ambições na Fórmula 1.

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Categorias:Opinião Tags:,
  1. João Anderson
    23/10/2009 às 0:16

    Ótima análise. Eu diria que você foi muito feliz em atribuir o sucesso da Brawn GP ao fator surpresa e vou mais além: digo que vai ser muito difícil para eles repetirem os feitos realizados na temporada 2009. E os motivos são os mesmos.

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