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A Fórmula 1 não é um esporte

Pelo menos é isso que o ministro dos esportes da Índia, M. S. Gill, pensa. O assunto é curioso e polêmico. Tive a mesmíssima discução com um colega de serviço esta semana e não conseguimos convencer um ao outro.

Mas a troco de que o ministro indiano proferiu esta pérola? Segundo ele, “A Fórmula 1 não é puramente um esporte. Ela é entreterimento e este empreendimento por parte da JKSP é uma iniciativa comercial. […] A corrida de F1 proposta não satisfaz as condições que focam no esforço para avantajar-se na competição com outros”.

O que podemos retirar desta declaração do ministro?

  • Ele provavelmente não entende nada de Fórmula 1 ou
  • Há algum jogo político por trás dos panos ou
  • O governo indiano não quer bancar GP da Índia, previsto para 2011

Sobre a primeira possibilidade, podemos dissecar todos os aspectos esportivos da Fórmula 1, dentre eles a extrema inércia (a conhecida força-g) que age sobre os pilotos a cada curva e freiada na pista, colocando o corpo em situações onde o peso do piloto é cinco vezes maior que o normal, para os lados ou para a frente. Agora imaginem isso centenas de vezes pelas mais de 60 voltas de uma corrida. Outro fator importante é o calor: em pistas como a do Bahrein, chega a fazer 60°C dentro do cockpit! Em outras como Hungaroring os pilotos chegam a perder 3 litros de água via suor. Não é preciso muito conhecimento para perceber que os músculos do corpo do piloto devem ser extremamente fortes para aguentar as cargas laterais durante 1 hora e meia, além de estarem sempre bem hidratados para poder resistir à perda brusca de água e peso do corpo sem passarem mal. Jenson Button compete em triatlons, Mark Webber compete no Desafio da Tasmânia (onde quebrou uma perna e o cotovelo este ano) e Jarno Trulli participa de maratonas, então não há duvidas que, no aspecto atlético, a Fórmula 1 está em um nível altíssimo, muito a frente de vários outros esportes.

Outra argumentação ridícula diz que “quem faz tudo é o carro”. Eu vejo isso como um simples desconhecimento do esporte em seus detalhes mais importantes. O que acontece é que quem está assistindo as corridas no conforto de seu sofá acaba vendo somente os pilotos e os mecânicos nos pit stops, dando a impressão de que a Fórmula 1 é um esporte individual, quando na verdade é um dos esportes onde a equipe é mais importante do que um indivíduo (o piloto, no caso), muito mais do que em vários outros esportes. Desde os aerodinamicistas e designers na fábrica, dos mecânicos nas garagens até os engenheiros no pitwall, a Fórmula 1 é um esporte em equipe por natureza. Cada time tem sua equipe de profissionais capacitados, preparados para achar um metodo de fazer o carro andar alguns décimos mais rápido, para fazer um pit stop circurgicamente preciso ou decidir a melhor estratégia durante a corrida. Veja bem, cada time tem sua equipe, o que configura competição no mais alto nível, dentro de um conjunto de regras iguais para todos. Se isso não é esporte, o que seria então?

Realmente eu não creio que o Ministro de Esportes e Juventude da Índia seja ignorante a esse ponto, por isso eu vejo seu depoimento como uma mera ameaça, embora alguns trechos (como quando ele diz que esporte e entreterimento são coisas exclusivas, sem conexão) sejam ridículos. Talvez haja pressão do governo contra o Grande Prêmio da Índia. Em maio de 2008 M. S. Gill assumiu o cargo no lugar de Mani Shankar Aiyar, depois dos planos para o GP da Índia serem lançados. É possível que o atual ministro seja contra o GP e esteja tentando criar terreno para acabar com os planos, mas o mais provável seja uma mensagem que pode ser lida como “nós não vamos bancar a corrida”.

O futuro da Force India parece cada vez mais frágil, com a equipe devendo montanhas de dinheiro para a Ferrari e Mercedes. Há fortes rumores indicando que David Richards possa comprar a estrutura da Force India para poder entrar com a sua Prodrive, o que poderia ser um balde de água fria nos organizadores do evento indiano. O esporte não é tão popular na Índia ainda, e a equipe de Vijay Mallya é uma importante ferramenta para difusão da Fórmula 1 no país. Também não há previsão de um piloto indiano na Fórmula 1, com os nomes de Vitaly Petrov e Nico Hulkenberg sendo muito mais cotados do que Karun Chandhok. Isso pode resultar em pouco público para o GP, o que acarreta prejuizo. Bernie Ecclestone cobra horrores para sediar um evento de F1 e não seria surpresa se os organizadores tivessem de pedir uma ajudinha do governo. Óbviamente a Índia deve se preocupar com outras coisas, como escolas, hospitais, segurança pública, estradas, saneamento, fome e etcetera. Nesse aspecto, defendo que um governo não subsidie um evento. É prejuizo para todos: o governo perde e a população perde, pois os preços dos ingressos sobem à estratosfera. Quem paga $1.500 para assistir a corrida, na verdade estará pagando $1.700 para assistir um evento financiado com dinheiro público, enquanto as ruas não estão asfaltadas e os hospitais lotados… e quem lucra com isso? Ele mesmo! Bernie Ecclestone!

Conclusão: a Fórmula 1 é um esporte sim, e o GP da Índia pode morrer antes mesmo de nascer.

Guilherme

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