Início > Analises > GP da Europa – Como nos velhos tempos

GP da Europa – Como nos velhos tempos

Muitos consideraram o GP da Europa como entediante, processional e sonolento, mas não para a maioria dos brasileiros. Pela primeira vez, desde o GP dos Estados Unidos de 2005, tivemos apenas um representante na pista, e por mais irônico que seja, é um dos pilotos brasileiros mais criticado da história. Ele mesmo, Rubens Barrichello.

Rubens Barrichello rumo à vitória em Valência

Rubens Barrichello rumo à vitória em Valência

A missão parecia difícil. Impossível, alguns diriam, caso não acontecesse nada fora do comum. Mas Rubens Barrichello provou ontem, na pista, que não está fora da briga pelo título.

Com a primeira fila ocupada pelos carros prateados, dotados de seus poderosos KERS, o mais provável era que Rubens continuasse em terceiro, tendo de se preocupar mais com os carros atrás do que em ultrapassar Kovalainen ou Hamilton. Ao contrario de suas largadas desastrosas na Austrália e na Turquia, por exemplo, Rubens vem fazendo ótimas largadas ultimamente, o que o permitiu esboçar um ataque a Kovalainen na primeira curva, já que mesmo com o benefício do KERS, os pilotos da McLaren não puderam utilizá-lo de forma 100% efetiva devido à curta reta de largada do circuito valenciano. Com a porta fechada, Rubens recuou, evitando assim um possível toque com o finlandês.

Com o carro mais pesado e usando os pneus mais duros, a única coisa esperada de Barrichello seria que ele mantesse contato com Heikki, não deixando Lewis fugir muito. Conspiração ou não, ficou claro que Heikki não andou tudo o que podia no início da corrida, ficando 4 segundos atrás de Hamilton nas duas primeiras voltas, para depois imprimir um ritmo de corrida idêntico ao de seu companheiro de equipe até a sua primeira parada nos boxes.

Conforme os pneus macios das McLarens iam se deteriorando, ficava mais fácil para Rubens continuar na perseguição a Heikki. Quando Hamilton e Kovalainen param nos boxes nas voltas 17 e 18, respectivamente, Rubens tinha mais 3 voltas para colocar um ritmo de classificação, com pouco combustível no tanque e pneus relativamente bons. Com ar limpo à frente, Rubens mostrou o verdadeiro potêncial do BGP 001, sendo o primeiro a fechar uma volta abaixo da casa de 1:39. As três voltas nesse ritmo foram suficientes para ultrapassar Kovalainen e cortar a vantagem de Lewis Hamilton em mais da metade. E no segundo stint que tudo se decidiu.

Sentindo um pouco de instabilidade no carro, o engenheiro de Jenson Button decidiu trocar sua estratégia de pneus para duro-macio-macio. Quase dei um pulo do sofá, pensando “que troquem para o Jenson, mas não para o Rubens!” Não sou engenheiro, mas parecia óbvio que o desemepenho da Brawn era satisfatório com os pneus duros, podendo manter-se no mesmo ritmo da McLaren de Hamilton com pneus macios. E, graças a Deus, Rubens continuou com pneus duros.

O segundo stint foi uma sucessão de “provocações” entre Hamilton e Rubens. Nas voltas seguintes à saída de Rubens dos boxes, Hamilton conseguiu abrir sua vantagem em 1.5 segundos, aumentando para 4 no total, até que os pneus do carro de Rubinho atingiram a “window of operation” – a temperatura ideal para um bom funcionamento dos pneus. A partir daí foi uma luta de um para aumentar a vantagem e de outro para diminui-la. Quando um tirava 4 décimos em uma volta, outro colocava os 4 décimos de volta. Não teve ação na pista entre os dois, mas foi uma experiência tanto emocionante acompanhar os tempos com tanta apreensão. Rubens fez o que tinha de ser feito: não deixou Hamilton se distânciar, para então colocar algumas voltas de classificação e ultrapassar Lewis nos boxes. Parecia difícil, mas o destino deu uma ajudinha…

…Quando Hamilton entou nos boxes enquanto a equipe não o esperava. Segundo Martin Whitmarsh, houve um atraso na hora de avisar Hamilton para que ele estendesse sua parada em mais uma volta, pois quando a informação foi passada, Lewis já estava na entrada dos boxes, pegando os mecânicos de surpresa, sem os pneus a disposição. Uma parada que deveria demorar 6,5 segundos durou 12 – uma eternidade na Fómula 1.

Talvez tenha sido impressão minha, mas a reação de Jock Clear (engenheiro de Rubens) ao rádio, avisando Rubinho da parada antecipada de Hamilton tenha demonstrado que não foi apenas um atraso na comunicação: nem os caras da Brawn esperavam. Ouvir Jock gritando para Rubens no rádio foi de arrepiar…

“That’s it Rubens! Hamilton is in! Give me five qualifying laps! FIVE QUALIFYING LAPS!!!”

E Rubens fez, marcando tempos alucinantes em um ritmo frenético. Era visível como ele tirava tudo do carro a cada curva, passando a centimetros dos muros, para meu desespero e de todos os brasileiros que estavam torcendo por ele. O pneu voador de Nakajima levantou o medo de Safety Car na pista, apesar de ter ficado fora do traçado, o que levou o time de Brackley a adiar a parada de Rubens em duas voltas, para a volta 56, mas a esta altura já era suficiente para ficar à frente de Lewis. Naquele momento todas as atenções se voltavam para os mecânicos, torcendo para que eles não cometessem nenhum erro. E não fizeram – foram perfeitos.

Momento apreensivo

Momento apreensivo

A partir daí, era só administrar a vantagem de 6 segundos para Lewis durante as 14 voltas seguintes e esperar a bandeira quadriculada. Um tema da vitória especial (que eu, particularmente, não gostei), a décima vitória pessoal, a centésima da nação e uma lufada de ar fresco na briga pelo campeonato. Corrida perfeita por parte de nosso único representante na pista e vitória mais do que merecida. Parabéns Rubens!

O time de Brackley

O time de Brackley

O resto:

Dei com a língua nos dentes, de novo… três vezes! Apostei em Alonso para a pole, deu Hamilton. Apostei em Hamilton para a corrida, deu Rubens. Disse que Heidfeld ia terminar a frente de Kubica e foi o contrário. Vou dizer que o Kimi vai quebrar em Spa… assim talvez ele ganhe.

McLaren volta definitivamente ao pelotão da frente, mas ainda hão de melhorar caso queiram mais vitórias. Foi uma corrida atípica para a Red Bull e a Ferrari está desfalcada. A próxima prova será teste verdadeiro, onde as curvas rápidas do templo de Spa-Francorchamps deveriam salientar as deficiencias do MP4/24.

Corrida discreta, porém ótima de Kimi Räikkonen, sempre arrastando a Ferrari onde der. Terceiro foi mais do que bom, considerando a performance bem mais elevada da McLaren de Heikki Kovalainen. Pior é, como fã do piloto, ter que o ouvir o Reginaldo Leme vomitar asneiras (o que é difícil de ele fazer, diga-se de passagem) sobre o Iceman. Agora para ele tudo o que o Räikkönen faz é “circunstancial”. Francamente Reginaldo, sabemos que você é fã do Massa, do Hamilton e do Alonso, e que o Kimi ganhou seu campeonato justamente encima desses 3 pilotos, mas você é um comentarista da maior rede de televisão do país, que supostamente é séria e deveria ser mais imparcial, ainda mais quando detratar um piloto não tem nada a ver com os pilotos brasileiros, os quais eles devem sim exaltar.

Já o outro piloto da Ferrari… melhor nem falar. Rodou, andou sempre atrás e tomou um drive through por uma saída dos boxes completamente escrota. Eu queria, de coração, que ele fizesse uma boa participação, mas assim fica difícil… Tem muita gente de olho no lugar dele.

As Red Bulls pareciam estar correndo em outra categoria. Mark Webber se classificou mal e terminou a corrida mal, fora da zona de pontuação. Vettel, coitado, está numa zica incrível. Quando ele não faz besteira, o motor estoura. Assim fica difícil…

Kubica conseguiu um pontinho, finalmente. Gosto meio amargo, é claro. Quem estava disputando o título e chegou a liderar o mundial ano passado não pode ficar feliz por chegar em oitavo e marcar 3 pontos no ano.

Estréia boa de Romain Grosjean. Não fez nada demais, nem nada de menos. Andou pior do que Piquet andaria, é claro, mas é sua estréia na equipe e não podemos esperar mais dele do que ele fez.

A Fórmula 1 voltou mas a silly season continua cada vez mais forte, além dos rumores sobre a permanencia de uma certa equipe japonesa… Vamos falar sobre isso mais tarde.

Termino aqui este post imenso com a fala de Ross Brawn na mente, que mostra que o gênio da estratégia tem um carinho precioso com Rubens, desde seus tempos de Ferrari:

“Absolutely fantastic drive Rubens! It was just like the old days”

É, como nos velhos tempos…

Mais tarde (talvez a noite), as estatísticas!

Guilherme

Anúncios
  1. 24/08/2009 às 16:13

    Meu caro Guilherme:
    Primeiro quero dar os parabéns pelo blog. Confesso que desde a morte de Ayrton Senna não acompanhei mais as corridas de F1, claro, alguma coisa que outra. Mesmo assim, torço de certa forma para o Felipe Massa e para o Alonso e a todos os brasileiros que concorrem ao difícil título da Fórmula 1. Penso ser um esporte um tanto quanto “sem graça”, pois quem faz a parte atlética são os carros e não os pilotos. Mas isso seria um tema para discutirmos outra hora, pois agora estou falando do teu blog e da “quase” inesperada vitória de Rubens Barrichello.
    Rubinho sim é um bom piloto, mas acredito que ele sofra de uma coisa que é comum no mundo para milhões de pessoas: a falta de sorte. De tanto participar e ter na maioria das vezes um escudo bom por trás, já poderia ter sido campeão mundial. Mas quase sempre não dá pro ele ter tido azar, não acha? Mas também, de qualquer forma, deixou seu nome na história das vitórias brasileiras na F1, a 100ª vitória do Brasil. Ele merece, não concorda?
    Um abarço e continua dentro dessa era digital nos contando tudo com tuas boas percepções e boas idéias.
    Matheus Ribas.

    • Guilherme Teixeira
      24/08/2009 às 16:35

      Fala Ribas! Você não é o único que deixou de assistir o esporte depois da morte do Senna. Muitas pessoas assistiam somente na expectativa de ver Senna chegando ao alto do pódio. Alguns já estavam acostumados a ouvir o tema da vitória dos domingos pela manhã, e perder um piloto fantástico como ele era foi difícil para os brasileiros, mesmo aqueles que não acompanhavam as corridas.

      E, como Fórmula 1 não é muito sua área, é de se esperar que ache que a parte atlética é feita pelos carros, e isso é um equívoco clássico. Muitos chegam ao absurdo de dizer que qualquer um poderia ser um piloto de corridas, quando na verdade pilotos – principalmente os de monopostos de alta velocidade – são verdadeiras máquinas biológicas. Todos são atlétas de altíssimo nível, não deixando nada a desejar a jogadores de futebol, volei, lutadores, etc.

      Prova disso é o retorno abortado de Michael Schumacher – sofrendo um acidente em fevereiro e machucando o pescoço, Michael acreditava estar em forma o suficiente para pilotar, mas após dois dias de testes, suas dores no pescoço aumentaram, acompanhadas de perda de visão, dadas as extremas forças laterais sofridas pelo pescoço do piloto – a área mais afetada. Mas não é só o pescoço que sofre, pois todo o corpo tem de aguentar até 5 vezes o peso da gravidade, as vezes varias vezes por volta.

      Os “insiders” da Fórmula 1 já diziam que Rubens tinha sim ótimas chances desde o início, mas eu achei que o Kers ia se mostrar uma arma efetiva da McLaren, mas não deu certo. No geral, o carro da Brawn GP, aliado ao ótimo desempenho de Rubens, estava muito melhor do que os carros da McLaren.

      A falta de sorte de Rubinho é algo impressionante, mas ele não é o único que sofre com isso. E te digo cara, o que mais que deixa “grilado” com ele são suas infelizes declarações à imprensa – não tem nada a ver com seu desempenho em pista, mas afeta e muito sua simpatia com os torcedores, sempre arranjando uma desculpa ou colocando a culpa no time quando algo dá errado. Nesse aspecto, aprecio muito a atitude de pilotos com o Hamilton, que diz que “o time ganha junto e perde junto”. Acho que o que ele teve não é bem “azar”, mas quando ele teve carros ótimos nas mãos, entre 2000 e 2004, Rubens tinha Michael Schumacher no time. Não estou dizendo que ele não foi campeão por ser segundo piloto da equipe, mas sim pq não tinha habilidade para tal.

      Sobre a 100ª vitória, com certeza ele deixou sua marca na história do automobilismo mundial, e não tinha piloto que merecia mais do que ele esse honra.

      Valeu pela visita Ribas!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: